Dra. Tamara Lazarini 

Nutricionista, Doutorado em oligossacarídeos pela Universidade Federal de São Paulo, membro do LASPGHAN. 

A obesidade infantil está associada a alterações na composição e na diversidade da microbiota intestinal, as quais podem influenciar o metabolismo energético, a inflamação de baixo grau e o risco cardiometabólico ao longo da vida. Estratégias de tratamento que promovam mudanças sustentáveis no estilo de vida podem, portanto, exercer impacto positivo não apenas no peso corporal, mas também na saúde intestinal. Neste contexto, intervenções baseadas em entrevista motivacional vêm ganhando destaque por favorecerem maior adesão às recomendações alimentares e comportamentais. 

Um estudo apresentado no 57th Annual Meeting of ESPGHAN em 2025 avaliou se uma intervenção estruturada de entrevista motivacional (OBEMAT2.0) seria mais eficaz do que o tratamento padrão da obesidade infantil na melhora da diversidade da microbiota intestinal. 

Metodologia 

O OBEMAT2.0 foi um ensaio clínico randomizado, aberto e por conglomerados, realizado em centros de atenção primária da região de Tarragona, Espanha, entre 2016 e 2019. Duplas de pediatra e enfermeiro foram randomizadas para manter o tratamento habitual (grupo controle) ou receber treinamento específico (12 horas) em entrevista motivacional (grupo intervenção). 

Participaram do estudo crianças com obesidade, entre 8 e 14 anos, acompanhadas por até um ano, com até 11 consultas em atenção primária. Avaliações clínicas iniciais e finais foram realizadas em ambiente hospitalar, incluindo a coleta de amostras fecais para análise da microbiota intestinal por sequenciamento do gene 16S rRNA. A diversidade microbiana foi avaliada por meio dos índices de Shannon e Simpson. 

Principais resultados 

Entre as 303 crianças inicialmente alocadas, 72 forneceram amostras fecais completas no início e ao final do acompanhamento, sendo 39 pertencentes ao grupo intervenção. As crianças acompanhadas por profissionais treinados em entrevista motivacional apresentaram aumento significativo da diversidade da microbiota intestinal quando comparadas ao grupo controle. 

No grupo intervenção, observou-se melhora significativa tanto no índice de Shannon quanto no índice de Simpson ao longo do período de acompanhamento. Em contraste, o grupo controle não apresentou melhora da diversidade microbiana, com tendência à redução desses índices. As diferenças entre os grupos foram estatisticamente significativas para ambos os indicadores de diversidade. 

Implicações para a prática clínica 

Os resultados demonstram que intervenções comportamentais baseadas em entrevista motivacional, quando incorporadas ao cuidado de rotina na atenção primária, podem promover mudanças positivas na diversidade da microbiota intestinal de crianças com obesidade. Esse efeito sugere uma melhoria potencial da saúde metabólica, indo além dos desfechos tradicionais relacionados ao peso corporal. 

Conclusão 

A intervenção OBEMAT2.0 mostrou-se mais eficaz do que o tratamento padrão da obesidade infantil na melhora da diversidade da microbiota intestinal. Esses achados reforçam o papel da entrevista motivacional como uma estratégia relevante e viável no manejo multiprofissional da obesidade infantil, com benefícios adicionais sobre a saúde intestinal e metabólica. 

O que este estudo nos ensina? 
  • A microbiota intestinal participa ativamente da saúde metabólica 
    Crianças com maior diversidade de microrganismos intestinais tendem a apresentar melhor equilíbrio metabólico, menor inflamação e maior resiliência fisiológica. A obesidade infantil costuma estar associada à redução dessa diversidade. 
  • O comportamento alimentar influencia a microbiota 
    Mudanças no padrão alimentar, na rotina familiar e no estilo de vida afetam diretamente a composição da microbiota intestinal. Estratégias que aumentam a adesão a essas mudanças são fundamentais para resultados duradouros. 
  • A entrevista motivacional vai além do aconselhamento tradicional 
    Diferentemente de abordagens prescritivas, a entrevista motivacional promove escuta ativa, empatia e construção conjunta de metas, favorecendo o engajamento da criança e da família no tratamento. 
  • Profissionais treinados fazem diferença nos desfechos de saúde 
    Neste estudo, crianças acompanhadas por pediatras e enfermeiros capacitados em entrevista motivacional apresentaram melhora significativa da diversidade da microbiota intestinal em comparação ao tratamento padrão. 
  • O impacto não se limita ao peso corporal 
    Mesmo sem focar exclusivamente em perda de peso, a intervenção mostrou benefícios na saúde intestinal, indicando que o sucesso do tratamento da obesidade infantil deve ser avaliado de forma mais ampla. 
Como aplicar esse conhecimento na prática?
  • Valorizar abordagens centradas na família, com metas realistas e progressivas.
  • Investir na capacitação da equipe de saúde em técnicas de comunicação e mudança de comportamento.
  • Considerar a saúde intestinal como um desfecho relevante no acompanhamento da obesidade infantil.
  • Reforçar que pequenas mudanças sustentáveis podem gerar benefícios metabólicos significativos ao longo do tempo.
Alcázar M, Escribano J, Ferre N, Gispert-Llauradó M, Muñoz-Hernando J, Rubio Torrents C, Castillejo G, Feliu A, Luque V. Efficacy of a motivational intervention to improve gut microbiota diversity in children with obesity: a randomized, clustered, open-label intervention trial. In: 57th Annual Meeting of the European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition (ESPGHAN); 2025 May 14–17; Helsinki, Finland. Abstract. 
Clique aqui e saiba mais: https://www.mdpi.com/2072-6643/11/2/419

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Dra Tamara Lazarini

Nutricionista, Doutorado em oligossacarídeos pela Universidade Federal de São          Paulo, membro do LASPGHAN.