A infância é um período decisivo para a formação dos hábitos alimentares, e a escola tem um papel fundamental nesse processo. É nesse ambiente que a criança vivencia experiências repetidas com os alimentos, constrói preferências e desenvolve sua relação com a comida.
Nos últimos anos, porém, um desafio importante tem ganhado espaço: o aumento do consumo de alimentos ricos em açúcar, gordura, sódio e aditivos entre crianças e adolescentes, inclusive no ambiente escolar.
De acordo com o Ministério da Saúde, por meio do Guia Alimentar para a População Brasileira, esses alimentos devem ser evitados, especialmente na infância, por estarem associados a impactos negativos na saúde ao longo da vida.
O cenário atual
Hoje, esses alimentos já fazem parte da rotina alimentar de muitas crianças. Dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE mostram que esses produtos representam uma parcela significativa da alimentação infantil, podendo chegar a cerca de 20% da ingestão calórica total.
Complementando esse cenário, o ENANI evidencia que o consumo de alimentos de baixa qualidade nutricional se inicia cada vez mais cedo, ainda nos primeiros anos de vida, reforçando a preocupação com a formação precoce de hábitos alimentares.
Além disso, dados do sistema VIGITEL apontam aumento progressivo no consumo de bebidas adoçadas e produtos industrializados ao longo dos últimos anos.
Entre os alimentos mais consumidos estão bebidas adoçadas e biscoitos recheados.
Esse padrão alimentar, quando iniciado precocemente, tende a se manter ao longo da vida.
Impactos na saúde infantil
Evidências científicas nacionais e internacionais demonstram que o consumo frequente de alimentos ricos em açúcar está associado a piores desfechos em saúde.
Estudos publicados em revistas científicas como Public Health Nutrition e Preventive Medicine, incluindo pesquisas de Louzada e colaboradores, indicam associação com maior risco de obesidade infantil, pior qualidade da dieta e maior consumo energético total.
Relatórios da World Health Organization reforçam que ambientes alimentares com baixa qualidade nutricional contribuem para o aumento das doenças crônicas desde a infância.
Por que isso importa dentro da escola?
A escola não é apenas um local onde a criança se alimenta, é um espaço onde ela aprende a comer.
A exposição frequente a esses tipos de alimentos nesse ambiente pode influenciar diretamente as preferências alimentares, reduzindo o interesse por alimentos in natura e dificultando a aceitação de novos sabores.
Por outro lado, quando bem estruturado, o ambiente escolar atua como fator de proteção. De acordo com a Food and Agriculture Organization, políticas alimentares escolares têm impacto direto na qualidade da alimentação infantil e na formação de hábitos saudáveis.
O que a escola pode fazer na prática:
- Pequenas mudanças no ambiente escolar geram grandes impactos ao longo do tempo.
- Revisar o que é oferecido é essencial, priorizando alimentos in natura e minimamente processados.
- Promover experiências alimentares positivas amplia o repertório alimentar. A exposição repetida e respeitosa a alimentos naturais favorece a aceitação, conforme descrito por Birch e Doub em estudos sobre comportamento alimentar infantil.
- O alinhamento com as famílias fortalece esse processo. Compartilhar orientações baseadas em evidências contribui para a continuidade das práticas em casa.
- Evitar associações negativas com a comida é fundamental. O uso de alimentos como recompensa interfere na autorregulação alimentar da criança.
- Valorizar o comportamento alimentar, respeitando fome e saciedade e incentivando a autonomia, contribui para uma relação mais saudável com a alimentação.
Mais do que retirar alimentos, é construir hábitos
Reduzir o consumo de alimentos de baixa qualidade nutricional não é apenas uma questão de retirar produtos, mas de criar um ambiente alimentar que favoreça escolhas mais saudáveis de forma natural.
A alimentação da criança não é construída apenas em casa, ela é moldada todos os dias pelas experiências que vive. Quando a escola organiza seu ambiente alimentar com intencionalidade, ela não apenas reduz o consumo de alimentos ricos em açúcar, gordura e sódio, mas amplia repertórios, forma preferências e contribui para escolhas mais conscientes. Educar o paladar é, acima de tudo, educar para a vida.
Referências
IBGE. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017–2018. Consumo alimentar pessoal no Brasil. Rio de Janeiro, 2020.
ENANI. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2021.
VIGITEL. Ministério da Saúde. Brasil, 2023.
Monteiro CA et al. Ultra processed foods and the NOVA classification. Public Health Nutrition, 2019.
Louzada MLC et al. Consumption of ultra processed foods and obesity in Brazilian population. Preventive Medicine, 2015.
Birch LL, Doub AE. Learning to eat: birth to age 2 years. American Journal of Clinical Nutrition, 2014.
World Health Organization. Policies to protect children from unhealthy diets. Geneva, 2023.
Food and Agriculture Organization. School food and nutrition framework. Rome, 2019.
