Os primeiros 1000 dias de vida constituem um período crítico do desenvolvimento. Nesta fase, a microbiota está em formação e a barreira intestinal ainda é imatura, tornando os lactentes e as crianças pequenas particularmente vulneráveis a contaminantes, como as micotoxinas. Por isso, é importante conhecer maneiras de reduzir a exposição a micotoxinas durante a primeira infância e orientar as famílias a fazerem escolhas alimentares seguras.
O que são micotoxinas?
As micotoxinas são metabólitos tóxicos produzidos por algumas espécies de fungos filamentosos, principalmente dos gêneros Aspergillus, Fusarium, Penicillium e Alternaria. Estes fungos contaminam alimentos desde o cultivo até o armazenamento 1. Ao contrário dos fungos, as micotoxinas são resistentes a processos térmicos, o que significa que o processamento industrial e o cozimento doméstico não as eliminam dos alimentos 2. Uma estimativa recente é de que 60 a 80% dos alimentos produzidos no mundo estejam contaminados por micotoxinas, dos quais 20% possuem quantidades acima dos limites regulatórios permitidos 3.
Presença em cereais e exposição precoce
Os cereais são a base da introdução alimentar, mas também são os alimentos com maior frequência de contaminação por micotoxinas 4:
- Aveia, trigo e milho: são as matérias-primas com maior frequência de micotoxinas, geralmente deoxinivalenol (DON), zearalenona (ZEN), ocratoxina A (OTA) e fumonisinas (FBs).
- Arroz, cevada e centeio: geralmente contaminados por DON, OTA e aflatoxinas (AFs).
- Misturas multicereais: devido à combinação de diferentes matérias-primas, apresentam a maior diversidade de micotoxinas, sendo o DON a mais recorrente.
Globalmente, o DON é a micotoxina mais frequente em alimentos infantis (43%), seguido pelas AFs (18%), OTA (14%), FBs (12%) e ZEN (9%) 4.
No Brasil, a alimentos infantis à base de trigo e de arroz apresentam a maior frequência de micotoxinas, enquanto a coocorrência de mais de um tipo de micotoxina é geralmente observada em produtos multicereais 5.
Lactentes e crianças são especialmente vulneráveis à toxicidade das micotoxinas devido ao seu alto consumo de cereais, à ingestão alimentar proporcionalmente maior em relação ao seu peso corporal, à maior taxa metabólica e à imaturidade do sistema imunológico 6.
É importante notar que as micotoxinas presentes em alimentos contaminados consumidos durante a lactação são transferidas para o leite materno 7. A presença de micotoxinas no leite materno estabelece uma via de exposição contínua que se inicia antes mesmo da introdução de alimentos sólidos 8.
Impacto na microbiota intestinal e no sistema imunológico
A exposição a micotoxinas durante a primeira infância pode levar às seguintes consequências:
- Disbiose precoce: o efeito antimicrobiano das micotoxinas desestabiliza a sucessão ecológica natural da microbiota, inibindo colonizadores benéficos como Bifidobacterium e favorecendo potenciais patógenos como Escherichia coli e Clostridioides difficile. As micotoxinas também inibem a produção de metabólitos importantes, como os ácidos graxos de cadeia curta 9,10.
- Comprometimento da barreira intestinal: algumas micotoxinas afetam a síntese de claudina e ocludina, componentes das junções entre as células epiteliais, além de prejudicar a regeneração celular e reduzir o número de células caliciformes secretoras de mucinas. Esses efeitos levam a um aumento da permeabilidade intestinal, permitindo a translocação de patógenos, antígenos alimentares e toxinas bacterianas para a corrente sanguínea, provocando inflamação sistêmica 11.
Segurança e o papel do profissional de saúde na orientação nutricional das famílias
É fundamental informar as famílias sobre a presença frequente de micotoxinas em cereais de alto consumo entre as crianças, como a aveia, o trigo, o milho e o arroz. É importante orientar as famílias em aleitamento materno a escolher alimentos de qualidade e esclarecer que o cozimento não elimina as micotoxinas.
Nem todos os cereais disponíveis no mercado são adequados para crianças pequenas. Para reduzir os riscos, a ANVISA estabelece limites máximos tolerados (LMT) muito mais rigorosos para alimentos infantis, em comparação com os de consumo geral . Assim, é fundamental que o profissional de saúde recomende produtos que atendam aos seguintes critérios:
- Controle de micotoxinas: Alimentos com níveis rigorosamente monitorados e em conformidade com os LMTs vigentes da ANVISA.
- Registro específico: Produtos formulados e registrados na ANVISA especificamente para a faixa etária infantil.
- Garantia de origem: O risco de contaminação de alimentos infantis por micotoxinas está diretamente ligado à qualidade da matéria-prima utilizada na sua produção. Priorizar produtos que assegurem a qualidade desde a colheita até o processamento.
Conclusão
O cuidado com a saúde na infância exige atenção a contaminantes invisíveis, como as micotoxinas. Ao orientar as famílias sobre escolhas alimentares seguras, você protege a saúde intestinal e promove o desenvolvimento saudável da criança.
Consulte os limites para micotoxinas em alimentos infantis estabelecidos pela ANVISA na Instrução Normativa nº 160, de 01/07/2022, e suas atualizações no site AnvisaLegis.
Referências
2. Kabak, B. The fate of mycotoxins during thermal food processing. J. Sci. Food Agric. 89, 549–554 (2009).
3. Eskola, M. et al. Worldwide contamination of food-crops with mycotoxins: Validity of the widely cited ‘FAO estimate’ of 25%. Crit. Rev. Food Sci. Nutr. 60, 2773–2789 (2020).
4. Ullah, S. et al. Global occurrence and levels of mycotoxins in infant foods: A systematic review (2013–2024). Food Control 171, 111135 (2025).
5. Giomo, P. P., Neuenfeldt, N. H., Braga, P. A. D. C., Bragotto, A. P. A. & Rocha, L. D. O. Assessment of mycotoxin contamination in cereal-based baby foods destined for infant consumption in Brazil. Food Control 164, 110561 (2024).
6. Rebellato, A. P., Santos Caramês, E. T. dos, Pallone, J. A. L. & Oliveira Rocha, L. de Mycotoxin bioaccessibility in baby food through in vitro digestion: an overview focusing on risk assessment. Curr. Opin. Food Sci. 41, 107–115 (2021).
7. Tonon, K. M., Reiter, M. G. R., Savi, G. D. & Scussel, V. M. Human milk AFM1, OTA, and DON evaluation by liquid chromatography tandem mass specrometry and their relation to the Southern Brazil nursing mothers’ diet. J. Food Saf. 38, e12452 (2018).
8. Tonon, K. M., Reiter, M. G. R. & Scussel, V. M. Mycotoxins Levels in Human Milk: A Menace to Infants and Children Health. Curr. Nutr. Food Sci. 9, 33–42 (2013).
9. Ullah, S. et al. The potential influence of food additives and contaminants on the gut microbiota: A comprehensive review. Food Chem. Toxicol. 206, 115768 (2025).
10. Ayeni, K. I. et al. Biomonitoring of Dietary Mycotoxin Exposure and Associated Impact on the Gut Microbiome in Nigerian Infants. Environ. Sci. Technol. 58, 2236–2246 (2024).
11. Gonya, S., Kallmerten, P. & Dinapoli, P. Are Infants and Children at Risk of Adverse Health Effects from Dietary Deoxynivalenol Exposure? An Integrative Review. Int. J. Environ. Res. Public. Health 21, 808 (2024).
