A fase pré-escolar (aproximadamente 3 a 5 anos) é marcada por crescimento estatural constante, maturação óssea e formação de hábitos alimentares que se estenderão pela vida toda. Nesse contexto, dois nutrientes merecem atenção redobrada do profissional de saúde na orientação às famílias: a proteína, pela sua relação com crescimento e composição corporal, e o cálcio, pilar da mineralização óssea.
Quanto de proteína a criança pré-escolar realmente precisa?
Diferentemente do que a percepção popular sugere, as necessidades proteicas nessa faixa etária são modestas. As Dietary Reference Intakes (DRI) situam a recomendação em torno de 13 g/dia para crianças de 1 a 3 anos e 19 g/dia para as de 4 a 8 anos — valores que, na prática clínica, costumam ser atingidos com folga por uma alimentação variada e um apetite considerado normal para a idade (1,4). O Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) reforça essa mesma faixa de referência em seus manuais de orientação alimentar (1,2).
O ponto de atenção está no outro extremo: revisões recentes mostram que crianças e adolescentes em países desenvolvidos consomem, em média, de duas a três vezes mais proteína do que o recomendado — um padrão amplificado pela popularização de bebidas e suplementos hiperproteicos originalmente formulados para adultos, hoje ofertados também ao público infantil sem lastro em evidência científica para essa faixa etária (5).
Por que o excesso de proteína preocupa nessa fase?
A chamada “hipótese proteica precoce” (early protein hypothesis) descreve como a ingestão proteica elevada nos primeiros anos de vida pode elevar a secreção de aminoácidos insulinogênicos, estimulando a liberação de insulina e do fator de crescimento IGF-1. Esse eixo hormonal favorece o ganho de peso e a expansão do tecido adiposo, associando-se a maior risco de sobrepeso e obesidade em fases posteriores da infância (6). Embora os estudos mais robustos desse mecanismo tenham sido conduzidos em lactentes, revisões mais recentes já apontam sinais de associação semelhante quando a ingestão proteica permanece elevada ao longo da infância pré-escolar e escolar (5,7).
Esse cenário reforça que “mais proteína” não significa “mais crescimento saudável” — pelo contrário, a quantidade correta, ajustada à faixa etária, é o que sustenta o desenvolvimento sem sobrecarregar o metabolismo infantil.
Cálcio: o nutriente que não pode faltar no dia a dia
Enquanto o excesso de proteína é o alerta, o cálcio costuma ser o nutriente que exige reforço ativo na orientação nutricional. A maior parte das crianças consegue atingir a recomendação diária de cálcio com a oferta de cerca de três porções de lácteos (ou equivalentes) ao longo do dia — leite, iogurte e queijo são as principais fontes na rotina alimentar infantil (2,3). A adequação de vitamina D também é relevante, já que ela otimiza a absorção intestinal do cálcio ingerido (2).
Orientar a família sobre porções adequadas de lácteos no dia a dia — no café da manhã, nos lanches e nas refeições principais — é uma das intervenções mais simples e efetivas para garantir a mineralização óssea nessa fase de crescimento acelerado.
Na prática clínica
Para o profissional que orienta famílias de crianças pré-escolares, a mensagem-chave é dupla:
– Proteína: priorizar a quantidade adequada à idade, vinda de fontes bem distribuídas ao longo do dia, evitando a adoção de produtos hiperproteicos voltados ao público adulto sem indicação individualizada.
– Cálcio: garantir a oferta consistente de porções lácteas diárias, associada à exposição solar adequada para otimizar a vitamina D.
Referências
2. Sociedade Brasileira de Pediatria. Guia prático de alimentação da criança de 0 a 5 anos. Rio de Janeiro: SBP; 2021.
3. Institute of Medicine (US) Committee to Review Dietary Reference Intakes for Vitamin D and Calcium. Dietary Reference Intakes for Calcium and Vitamin D. Washington (DC): National Academies Press; 2011.
4. Institute of Medicine (US). Dietary Reference Intakes for Energy, Carbohydrate, Fiber, Fat, Fatty Acids, Cholesterol, Protein, and Amino Acids. Washington (DC): National Academies Press; 2005.
5. Garcia-Iborra M, Castanys-Munoz E, Oliveros E, Ramirez M. Optimal Protein Intake in Healthy Children and Adolescents: Evaluating Current Evidence. Nutrients. 2023;15(7):1683.
6. Koletzko B, von Kries R, Closa R, Escribano J, Scaglioni S, Giovannini M, et al. Lower protein in infant formula is associated with lower weight up to age 2 y: a randomized clinical trial. Am J Clin Nutr. 2009;89(6):1836-45.
7. Escobedo-Monge MF, Parodi-Román J, Escobedo-Monge MA, Marugán-Miguelsanz JM. The Biological Value of Proteins for Pediatric Growth and Development: A Narrative Review. Nutrients. 2025;17(13):2221.
