A infecção pelo vírus sincicial respiratório (RSV) permanece como uma das principais causas de hospitalização em lactentes no primeiro ano de vida. Paralelamente, cresce o interesse científico sobre fatores nutricionais precoces capazes de modular a suscetibilidade e a gravidade das infecções respiratórias. A revisão publicada em 2024 na Advances in Nutrition explora de forma abrangente o papel dos oligossacarídeos do leite humano (HMOs) na proteção contra o RSV. 

O artigo consolida evidências mecanísticas, observacionais e experimentais, ampliando a compreensão do leite humano como modulador sistêmico da imunidade, incluindo o eixo intestino–pulmão. 

HMOs: muito além do efeito prebiótico 

Os HMOs são o terceiro componente sólido mais abundante do leite humano, após lactose e lipídios. São carboidratos complexos estruturalmente diversos, cuja composição varia conforme: 

  • Status secretor materno (FUT2/FUT3) 
  • Estágio da lactação 
  • Fatores genéticos e ambientais 

Tradicionalmente associados ao efeito prebiótico seletivo (especialmente sobre Bifidobacterium spp.), os HMOs vêm sendo reconhecidos como moléculas bioativas com efeitos imunomoduladores sistêmicos. 

A revisão destaca que parte dos HMOs é absorvida intacta, alcançando a circulação sistêmica e potencialmente modulando respostas imunes extraintestinais. 

Mecanismos propostos de proteção contra o RSV

O artigo organiza os mecanismos em quatro eixos principais: 

Efeito “decoy receptor” 

Alguns HMOs mimetizam glicanos presentes na superfície epitelial respiratória. 
Essa similaridade estrutural pode: 

  • Competir com receptores celulares 
  • Reduzir adesão e entrada viral 
  • Atenuar replicação inicial 

Embora o RSV utilize principalmente receptores proteicos, a interação com glicanos pode influenciar o processo infeccioso. 

Modulação da microbiota e eixo intestino–pulmão 

A modulação da microbiota intestinal pelos HMOs influencia: 

  • Produção de metabólitos imunomoduladores (ex.: ácidos graxos de cadeia curta) 
  • Maturação de células dendríticas 
  • Polarização de linfócitos T 
  • Respostas antivirais inatas 

A revisão reforça o conceito de eixo intestino–pulmão, no qual alterações na microbiota intestinal impactam a imunidade respiratória. 

Esse mecanismo é particularmente relevante em lactentes, cuja colonização microbiana inicial é determinante para o desenvolvimento imunológico. 

Regulação da resposta inflamatória 

Estudos experimentais sugerem que determinados HMOs: 

  • Reduzem expressão de citocinas pró-inflamatórias 
  • Atenuam resposta Th2 exacerbada 
  • Modulam ativação de células NK e macrófagos 

Como o RSV está associado a inflamação intensa das vias aéreas inferiores, a modulação inflamatória pode ser crucial na redução da gravidade clínica. 

Influência do perfil específico de HMOs 

Evidências observacionais indicam que concentrações mais elevadas de certos HMOs — como 2’-fucosilactose (2’-FL) e lacto-N-neotetraose (LNnT) — podem estar associadas a: 

  • Menor incidência de infecções respiratórias 
  • Redução na gravidade do RSV 
  • Menor risco de hospitalização 

O status secretor materno emerge como variável relevante, uma vez que mães secretoras produzem maiores quantidades de HMOs fucosilados. 

Evidências clínicas: onde estamos? 

A revisão ressalta que: 

  • Estudos observacionais sugerem associação protetora consistente. 
  • Ensaios clínicos com fórmulas suplementadas com HMOs demonstram potencial redução de infecções respiratórias, embora os dados específicos para RSV ainda sejam limitados. 
  • Ainda faltam estudos longitudinais robustos avaliando desfechos clínicos específicos para RSV. 

Portanto, a relação causal ainda está em consolidação, mas o corpo de evidências biológicas é plausível e crescente. 

Implicações para a prática clínica 

Para profissionais de saúde, os achados reforçam pontos estratégicos: 

✔ O aleitamento materno exclusivo permanece como importante fator protetor contra infecções respiratórias. 
✔ A composição individual do leite humano pode influenciar risco infeccioso. 
✔ A suplementação de fórmulas com HMOs representa avanço promissor, porém ainda requer avaliação crítica baseada em desfechos clínicos sólidos. 

Além disso, os dados ampliam a compreensão da nutrição precoce como determinante da maturação imune sistêmica, não restrita ao trato gastrointestinal. 

Conclusão 

Os oligossacarídeos do leite humano configuram-se como componentes bioativos estratégicos na proteção contra infecções respiratórias, incluindo o RSV. A interação entre microbiota, imunidade sistêmica e epitélio respiratório reforça o conceito de que o leite humano atua como modulador ativo da programação imunológica. 

A compreensão desses mecanismos amplia a visão da nutrição neonatal como ferramenta central na prevenção de doenças infecciosas e potencial moduladora de risco respiratório futuro. 

Clique e sabia mais em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38583862/ 

Referência
Tonon KM, Chutipongtanate S, Morrow AL, Newburg DS. Human milk oligosaccharides and respiratory syncytial virus infection in infants. Adv Nutr. 2024;15:100218. doi:10.1016/j.advnut.2024.100218. 
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Karina M. Tonon, MSc., PhD.

Especialista em pesquisa sobre leite humano e microbiota intestinal, com foco no papel dos oligossacarídeos (HMOs). Sua trajetória inclui a investigação de micotoxinas no leite humano e em alimentos infantis. Possui mestrado em Ciência de Alimentos (UFSC), doutorado em Nutrição (EPM/UNIFESP) e pós-doutorado em Saúde Pública pela Universidade de Cincinnati (EUA).