Evidências apresentadas no 57th Annual Meeting of ESPGHAN 

A compreensão do leite humano evoluiu significativamente nas últimas décadas. Se antes era visto majoritariamente como fonte de macronutrientes, hoje é reconhecido como um sistema biológico complexo, dinâmico e metabolicamente ativo. A revisão publicada em 2025 na Current Opinion in Clinical Nutrition and Metabolic Care reforça esse conceito ao discutir o papel das proteínas do leite humano — especialmente suas frações bioativas — na regulação metabólica, imunológica e hormonal do lactente.

A hipótese da proteína precoce continua relevante

O artigo retoma e atualiza evidências relacionadas à “early protein hypothesis”, segundo a qual a ingestão elevada de proteína nos primeiros meses de vida pode estimular excessivamente o eixo IGF-1, favorecer maior ganho ponderal acelerado e aumentar o risco de adiposidade futura. 

O leite humano apresenta menor concentração proteica quando comparado a fórmulas infantis tradicionais. Esse perfil parece promover um crescimento mais fisiológico, com menor estímulo anabólico exacerbado. A revisão reforça que a qualidade da proteína — e não apenas a quantidade — é determinante na programação metabólica inicial. 

Esse ponto é particularmente relevante para profissionais que atuam com neonatologia, pediatria e nutrição materno-infantil, especialmente diante da crescente prevalência de obesidade infantil. 

Leite humano como sistema endócrino ativo 

O ponto central do artigo é o reconhecimento do leite humano como veículo de: 

  • Hormônios 
  • Fatores de crescimento 
  • Peptídeos bioativos 

Esses componentes interagem com o trato gastrointestinal imaturo do lactente e podem influenciar: 

  • Sensibilidade à insulina 
  • Sinalização de saciedade 
  • Crescimento corporal 
  • Regulação energética 

A composição do leite não é estática. Varia ao longo da lactação e responde a fatores maternos, reforçando seu caráter adaptativo e personalizado. 

Implicações clínicas e perspectivas futuras 

A revisão reforça o leite humano como padrão ouro não apenas nutricional, mas funcional e programador de saúde futura. Paralelamente, destaca o interesse crescente em aproximar fórmulas infantis da composição bioativa do leite humano e ajustes na carga proteica. 

No entanto, os autores enfatizam a necessidade de: 

  • Ensaios clínicos de longo prazo 
  • Avaliação de desfechos metabólicos consistentes 
  • Melhor compreensão dos mecanismos moleculares envolvidos 

Para profissionais de saúde, a mensagem é clara: a nutrição no início da vida exerce papel estruturante na trajetória metabólica futura. A qualidade proteica do leite humano e suas frações bioativas devem ser consideradas não apenas sob a ótica do crescimento imediato, mas também da programação metabólica e imunológica. 

Clique e saiba mais em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39964743/

Referências
Witte Castro A, Sanchez-Holgado M, Saenz de Pipaon M. Human milk proteins and metabolic programming: recent insights. Curr Opin Clin Nutr Metab Care. 2025;28(3):243–249. doi:10.1097/MCO.0000000000001114.
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Dra Tamara Lazarini

Nutricionista, Doutorado em oligossacarídeos pela Universidade Federal de São Paulo, membro do LASPGHAN.