Dra. Tamara Lazarini

Nutricionista, Doutorado em oligossacarídeos pela Universidade Federal de São Paulo, membro do LASPGHAN. 
Evidências apresentadas no 57th Annual Meeting of ESPGHAN 

A insegurança alimentar na infância vai além da ausência de alimentos: ela compromete a qualidade da dieta, o desenvolvimento físico e o desempenho acadêmico, com repercussões que podem se estender por toda a vida. Um estudo recente realizado em uma escola pública de ensino fundamental na Turquia lança luz sobre essa realidade e reforça a urgência de intervenções estruturais. 

Objetivo do estudo 

O estudo teve como objetivo avaliar a prevalência de insegurança alimentar entre crianças em idade escolar e investigar seus efeitos tanto na qualidade da dieta quanto no rendimento acadêmico, utilizando instrumentos validados e dados escolares objetivos. 

Metodologia 

Participaram da pesquisa 168 crianças, avaliadas por meio de: 

  • Questionários sociodemográficos 
  • Frequência de consumo alimentar e recordatório alimentar de 24 horas 
  • Medidas antropométricas (peso, altura, circunferências da cintura e do braço) 
  • Aplicação da Escala de Experiências de Insegurança Alimentar Infantil 
  • Avaliação da qualidade da dieta pelo Healthy Eating Index (HEI-20) 
  • Coleta das notas finais do semestre diretamente com a escola 

As análises estatísticas foram realizadas no IBM SPSS Statistics 22, considerando significância de p<0,05. 

Principais resultados 

Os achados revelam um cenário preocupante: 

  • 76% das crianças vivenciaram insegurança alimentar 
  • Nenhuma criança apresentou boa qualidade da dieta segundo o HEI-20 
  • Crianças em insegurança alimentar consumiram mais gordura saturada (p=0,042) 
  • Entre as meninas, observou-se maior ingestão de açúcar adicionado 
  • O desempenho acadêmico foi significativamente inferior entre crianças em insegurança alimentar, com médias mais baixas em: 
  • Matemática (p=0,005) 
  • Ciências (p=0,0013) 
  • Média geral do boletim (p=0,007) 

De forma adicional, cada ponto de aumento no escore de insegurança alimentar foi associado a quedas significativas nas notas: 

  • −1,877 pontos em matemática 
  • −1,094 pontos em ciências 
  • −1,373 pontos em ciências sociais 
  • −0,918 pontos na média final 

Esses dados reforçam uma relação dose–resposta entre insegurança alimentar e prejuízo acadêmico. 

Implicações para profissionais de saúde e gestores 

Os resultados evidenciam que a insegurança alimentar afeta diretamente não apenas o estado nutricional, mas também a capacidade de aprendizagem e o rendimento escolar. Para profissionais de saúde, especialmente nutricionistas, pediatras e equipes de atenção primária, o estudo destaca a importância de: 

  • Identificar sinais de insegurança alimentar durante atendimentos clínicos 
  • Avaliar a qualidade da dieta para além do consumo calórico 
  • Atuar de forma integrada com escolas e políticas públicas 

Além disso, reforça-se a necessidade de fortalecer programas de alimentação escolar, garantindo refeições nutricionalmente adequadas e contínuas, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. 

Conclusão 

Garantir o acesso regular a uma alimentação adequada e de qualidade é um pilar fundamental para o desenvolvimento infantil e para o sucesso escolar. A insegurança alimentar compromete a dieta e o desempenho acadêmico das crianças, evidenciando a urgência de políticas públicas e intervenções intersetoriais que promovam segurança alimentar e nutricional desde a infância. 

Referências
Güzelalp AH, Yüksel A. Insegurança alimentar em crianças: impacto na qualidade da dieta e no desempenho acadêmico. In: 57th Annual Meeting of the European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition (ESPGHAN); 14–17 May 2025; Helsinki, Finland. 
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Dra Tamara Lazarini

Nutricionista, Doutorado em oligossacarídeos pela Universidade Federal de São Paulo, membro do LASPGHAN.