O desenvolvimento das preferências alimentares começa muito antes da introdução dos primeiros alimentos sólidos. Ainda durante a gestação, o feto é exposto a sabores derivados da alimentação materna presentes no líquido amniótico e, após o nascimento, no leite materno. Essas exposições repetidas criam familiaridade sensorial. Quando a criança encontra esses sabores novamente na introdução alimentar, eles já não são totalmente novos. Isso aumenta a probabilidade de aceitação, reduz a rejeição inicial e facilita a introdução desses alimentos à rotina alimentar, influenciando as escolhas alimentares nos primeiros anos de vida e nas fases subsequentes do desenvolvimento1,2. Além dos fatores ambientais precoces, há uma contribuição genética modesta. Polimorfismos em genes relacionados à percepção gustativa, especialmente aqueles envolvidos na sensibilidade ao amargo e ao doce, podem modular a intensidade com que determinados sabores são percebidos³.

Os bebês nascem com preferência espontânea por sabores doce e umami, associados a fontes energéticas e proteicas, enquanto sabores amargos e ácidos tendem a provocar rejeição. Esses comportamentos evidenciam mecanismos biológicos adaptativos, relacionados à sobrevivência e à proteção contra substâncias potencialmente tóxicas⁴. Apesar dessas predisposições inatas, as preferências alimentares são maleáveis na infância, pois o sistema gustativo apresenta alta plasticidade. A exposição repetida a novos alimentos, aumenta a aceitação4,5. Por isso, é necessário manter atenção ao que é oferecido às crianças e aos ambientes alimentares aos quais elas são expostas.

As diretrizes alimentares até os dois anos são claras e costumam ser seguidas por boa parte dos pais. Após essa idade, entretanto, muitos flexibilizam de forma significativa a alimentação dos filhos. Surge a percepção de que os riscos diminuem ou de que o organismo da criança estaria mais preparado para lidar com produtos ultraprocessados e hiperpalatáveis. Essa ideia não encontra respaldo científico e pode decorrer do fato de as recomendações oficiais enfatizarem fortemente os primeiros dois anos de vida, gerando a falsa impressão de que, depois desse período, a exposição se torna menos problemática6.

De posse dessas informações, a introdução frequente de ultraprocessados após os dois anos não é neutra. Ela pode modificar preferências alimentares que estavam em consolidação na primeira infância e favorecer padrões baseados em alimentos ricos em açúcar, gordura e sódio⁶. Nessa fase, o cérebro permanece altamente plástico e sensível às experiências repetidas. Produtos ultraprocessados hiperestimulam circuitos cerebrais de recompensa e estão associados a alterações em regiões envolvidas no controle da ingestão alimentar, como o núcleo accumbens e o hipotálamo⁷. Com o tempo, sabores naturais tornam-se menos atraentes quando comparados a estímulos mais intensos e artificiais. Na prática, isso pode aumentar a seletividade alimentar, a recusa de novos alimentos e a preferência por padrões restritos e repetitivos⁷.

Sendo assim, a seletividade alimentar pode ser compreendida como parte de um espectro de dificuldades alimentares. Nesse espectro, ela representa a forma mais comum em um extremo, enquanto distúrbios alimentares graves situam-se no outro, ou seja a seletividade alimentar trata-se de um continuum de manifestações que variam em intensidade, combinação de sintomas e impacto funcional sobre a vida da criança e de sua família⁸. A seletividade alimentar não surge do nada nem é apenas “frescura”. Embora exista uma contribuição genética, especialmente relacionada à sensibilidade gustativa e reatividade sensorial, a seletividade alimentar não é determinada exclusivamente pela biologia, ela pode ser consequência de um ambiente alimentar que desorganiza a aprendizagem sensorial. Especialmente, quando há exposição precoce e frequente a estímulos hiperpalatáveis que modulam excessivamente os circuitos de recompensa⁸.

Por isso é tão importante proteger o desenvolvimento do paladar evitando hiperestimulação precoce e oferecendo variedade com repetição, previsibilidade e experiências positivas. O cuidado alimentar não deve se encerrar aos dois anos. Essa fase exige continuidade, coerência e estratégias claras para proteger o trabalho construído na primeira infância. A consolidação de hábitos saudáveis depende de consistência ao longo do tempo, e não apenas do cumprimento das recomendações iniciais⁶.

Referências
1. Spahn JM, Callahan EH, Spill MK, et al. Influence of maternal diet on flavor transfer to amniotic fluid and breast milk and children’s responses: a systematic review. Am J Clin Nutr. 2019;109(Suppl 7):1003S-1026S. doi:10.1093/ajcn/nqy240.


2. Ustun-Elayan B, Blissett J, Covey J, Schaal B, Reissland N. Flavor learning and memory in utero as assessed through the changing pattern of olfactory responses from fetal to neonatal life. Appetite. 2025;208:107891. doi:10.1016/j.appet.2025.107891.


3. Biruete A, Buobu PS, Considine RV, Hoxha EM, Eicher-Miller HA, Kinzig KP, et al. Ingestive behavior and precision nutrition: Part of the puzzle. Adv Nutr. 2025;16:100531. doi:10.1016/j.advnut.2025.100531.


4. Armitage RM, Iatridi V, Gaysina D, Tuorila H, Yeomans MR, Kaprio J, et al. Genetic and environmental influences on sweet taste liking and related traits: New insights from twin cohorts. Behav Genet. 2025;55:407-421. doi:10.1007/s10519-025-10232-2.


5. Hodder RK, O’Brien KM, Stacey FG, et al. Interventions for increasing fruit and vegetable consumption in children aged five years and under. Cochrane Database Syst Rev. 2019;2019(11):CD008552. doi:10.1002/14651858.CD008552.pub6.


6. Girona A, Machín L, Vitola A, Ares G, Rodríguez R, Vinçon C, et al. A qualitative exploration of parental decision-making regarding ultra-processed products for children aged 2 to 5 years. Appetite. 2026;220:108440. doi:10.1016/j.appet.2026.108440.


7. Morys F, Kanyamibwa A, Fängström D, Tweedale M, Pastor-Bernier A, Azizi H, et al. Ultra-processed food consumption affects structural integrity of feeding-related brain regions independent of and via adiposity. npj Metab Health Dis. 2025;3:13.


8. Gibson EL, Cooke L. Understanding food fussiness and its implications for food choice, health, weight and interventions in young children: The impact of Professor Jane Wardle. Curr Obes Rep. 2017;6:46-56. doi:10.1007/s13679-017-0248-9.
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Luana Stangherlin Santos, PhD

PhD | Pós-Doc em Neurodesenvolvimento e Autismo
Pesquisa, Docência e Prática Clínica em Nutrição