Os primeiros dois anos de vida representam uma das fases de maior velocidade de crescimento e desenvolvimento do organismo. Nesse período, necessidades elevadas de energia, proteínas, vitaminas e minerais coexistem com uma capacidade gástrica ainda reduzida e com a progressiva transição do aleitamento materno para uma alimentação complementar diversificada.

A partir dos 6 meses, o leite materno continua sendo importante fonte de nutrientes e componentes bioativos, mas passa a não ser suficiente, isoladamente, para suprir todas as necessidades nutricionais da criança. É nesse momento que a qualidade e a diversidade da alimentação complementar assumem papel fundamental na prevenção de deficiências nutricionais [1,2].

Dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019) demonstram que as deficiências de micronutrientes ainda constituem um importante problema de saúde pública entre crianças brasileiras. Entre crianças de 6 a 59 meses, aproximadamente 1 em cada 10 apresentava anemia, enquanto a deficiência de ferro foi identificada em proporção significativamente maior, evidenciando que a deficiência de ferro pode ocorrer antes mesmo do estabelecimento da anemia [3].

A situação é particularmente relevante nos primeiros dois anos, período em que as necessidades de determinados micronutrientes aumentam proporcionalmente mais do que a capacidade da criança de consumir grandes volumes de alimentos.

Por isso, mais do que pensar apenas em “oferecer uma alimentação saudável”, a introdução alimentar deve garantir densidade nutricional, variedade e presença regular de alimentos-fonte dos nutrientes mais críticos.

Quais são os nutrientes que mais merecem atenção?

Embora uma alimentação variada seja capaz de fornecer a maior parte dos nutrientes necessários à criança, alguns micronutrientes apresentam especial importância durante os primeiros dois anos de vida.

Entre eles, destacam-se:

  • ferro;
  • zinco;
  • vitamina A;
  • vitamina D;
  • vitamina B12;
  • folato;
  • iodo;
  • cálcio.

A importância de cada um está relacionada não apenas ao risco de deficiência, mas também ao papel que desempenham no crescimento, desenvolvimento neurológico, formação de células sanguíneas, imunidade, metabolismo ósseo e desenvolvimento dos tecidos.

Ferro: um dos principais nutrientes de atenção

O ferro é fundamental para a síntese de hemoglobina e para o transporte de oxigênio, mas suas funções vão muito além da prevenção da anemia. O mineral participa de processos relacionados ao metabolismo energético, à síntese de neurotransmissores, à mielinização e ao desenvolvimento cognitivo.

Os estoques de ferro acumulados durante a gestação contribuem para atender às necessidades da criança nos primeiros meses de vida. Entretanto, esses estoques diminuem progressivamente e, por volta dos 6 meses, a alimentação passa a desempenhar papel cada vez mais importante no fornecimento do mineral [1,4].

A deficiência de ferro durante períodos críticos do desenvolvimento pode estar associada a prejuízos funcionais, principalmente quando é intensa ou prolongada.

Ponto de atenção na introdução alimentar

Uma alimentação complementar baseada predominantemente em frutas, legumes, tubérculos e cereais, mas com pouca presença de alimentos-fonte de ferro, pode apresentar baixa densidade desse mineral.

Por esse motivo, alimentos do grupo das carnes, ovos e leguminosas devem fazer parte da rotina alimentar da criança, dentro de uma alimentação variada e adequada à fase de desenvolvimento.

Zinco: crescimento, imunidade e desenvolvimento

O zinco participa de centenas de reações enzimáticas e está envolvido na síntese de proteínas e DNA, divisão celular, crescimento, desenvolvimento neurológico e funcionamento do sistema imunológico [6].

Durante os primeiros anos de vida, quando ocorre intensa multiplicação celular e crescimento dos tecidos, a adequada ingestão de zinco é especialmente importante.

Principais fontes alimentares

As melhores fontes incluem:

  • carnes bovina, suína e de aves;
  • peixes e frutos do mar;
  • ovos;
  • leite e derivados;
  • feijões e outras leguminosas;
  • castanhas e sementes.

Assim como acontece com o ferro, a biodisponibilidade do zinco também deve ser considerada. Dietas predominantemente vegetais podem apresentar menor biodisponibilidade do mineral devido à presença de fitatos, que podem reduzir sua absorção [6,7].

Isso não significa que leguminosas e cereais devam ser excluídos — pelo contrário. Feijões, lentilha, grão-de-bico e cereais são importantes componentes da alimentação infantil. O ponto central é garantir diversidade alimentar e presença adequada de alimentos de maior densidade nutricional.

Quando a alimentação pode favorecer inadequação?

Dietas muito restritas, baixa variedade alimentar e consumo insuficiente de carnes, ovos, leguminosas ou outros alimentos-fonte podem contribuir para uma ingestão inadequada de zinco.

Vitamina A: visão, imunidade e integridade dos tecidos

A vitamina A possui papel essencial na visão, diferenciação celular, integridade das mucosas e funcionamento do sistema imunológico.

As fontes alimentares podem ser divididas em:

Vitamina A pré-formada

  • fígado e outras vísceras;
  • ovos;
  • leite e derivados.

Carotenoides pró-vitamina A

  • cenoura;
  • abóbora;
  • batata-doce alaranjada;
  • manga;
  • mamão;
  • vegetais verde-escuros.

A deficiência de vitamina A pode comprometer a resposta imunológica e, em situações mais graves, provocar alterações oculares.

No Brasil, dados do ENANI-2019 indicaram prevalência de deficiência de vitamina A de aproximadamente 6% entre crianças de 6 a 59 meses, mostrando que, embora o cenário tenha melhorado em relação a levantamentos anteriores, o problema ainda está presente [3].

Ponto de atenção

Uma alimentação complementar com pouca variedade de frutas, hortaliças e alimentos de origem animal pode apresentar menor oferta de vitamina A e carotenoides.

Além da variedade, é importante considerar que diferentes grupos de alimentos oferecem diferentes formas e quantidades do nutriente.

Vitamina D: muito além dos ossos

A vitamina D participa principalmente da regulação do metabolismo de cálcio e fósforo e é essencial para a mineralização óssea.

Suas fontes alimentares são relativamente limitadas. Entre elas estão:

  • peixes, especialmente os mais ricos em gordura;
  • gema de ovo;
  • fígado;
  • leite e derivados fortificados, quando aplicável;
  • alimentos fortificados.

A exposição solar também contribui para a síntese de vitamina D, embora essa não seja uma fonte alimentar e sua contribuição varie de acordo com diversos fatores, como latitude, estação do ano, pigmentação da pele, vestuário e exposição solar.

Por apresentar poucas fontes alimentares naturais, a vitamina D merece atenção especial na infância. A avaliação da necessidade de suplementação deve considerar as recomendações pediátricas e as características individuais da criança.

Vitamina B12: atenção especial em dietas com pouca ou nenhuma fonte animal

A vitamina B12 participa da formação das células sanguíneas, síntese de DNA e funcionamento do sistema nervoso.

Suas principais fontes naturais são alimentos de origem animal:

  • carnes;
  • peixes;
  • ovos;
  • leite e derivados.

Dessa forma, crianças que consomem pouca ou nenhuma fonte de alimentos de origem animal apresentam maior risco de inadequação, especialmente quando a dieta não é cuidadosamente planejada.

Dietas vegetarianas ou veganas podem ser adequadas à infância quando corretamente planejadas, mas exigem atenção especial à vitamina B12, cuja suplementação pode ser necessária de acordo com o padrão alimentar e a avaliação individual [2,8].

Folato: essencial para crescimento e divisão celular

O folato participa da síntese de DNA, divisão celular e formação de células sanguíneas.

Suas principais fontes alimentares incluem:

  • feijões e outras leguminosas;
  • vegetais verde-escuros;
  • abacate;
  • brócolis;
  • aspargos;
  • frutas cítricas;
  • alimentos fortificados, quando aplicável.

Uma alimentação diversificada, com presença frequente de leguminosas, hortaliças e frutas, geralmente contribui para uma boa oferta de folato.

O risco de inadequação aumenta quando existe baixa diversidade alimentar ou restrição importante de grupos alimentares.

Iodo: pequeno em quantidade, enorme em importância

O iodo é necessário para a produção dos hormônios tireoidianos, que estão diretamente envolvidos no crescimento e no desenvolvimento cerebral.

As principais fontes alimentares incluem:

  • sal iodado;
  • peixes e frutos do mar;
  • leite e derivados;
  • ovos.

No Brasil, a utilização de sal iodado constitui uma importante estratégia de saúde pública para prevenção da deficiência de iodo.

Entretanto, é importante fazer uma distinção: a recomendação de evitar o excesso de sal na alimentação infantil não significa utilizar sal não iodado ou aumentar deliberadamente a quantidade de sal oferecida à criança.

O objetivo é manter a alimentação adequada às recomendações para a faixa etária, utilizando sal iodado quando o sal fizer parte da preparação da alimentação familiar.

Cálcio: crescimento ósseo e mineralização

O cálcio é fundamental para a formação e mineralização dos ossos e dentes, além de participar da contração muscular, transmissão nervosa e outros processos fisiológicos.

As principais fontes são:

  • leite materno;
  • leite e derivados;
  • bebidas e alimentos fortificados;
  • alguns vegetais;
  • leguminosas;
  • sementes.

Nos primeiros dois anos, o leite materno permanece importante, especialmente no segundo semestre de vida. Para crianças que não são amamentadas, a composição da alimentação e o tipo de fórmula utilizada devem ser considerados na avaliação da ingestão de cálcio.

A presença de alimentos-fonte de cálcio ao longo do dia é particularmente importante quando existe restrição ou exclusão de leite e derivados.

Não é apenas “o que a criança come”, mas a diversidade da alimentação

Um dos principais desafios da introdução alimentar é evitar que a alimentação se torne excessivamente repetitiva.

Uma criança pode consumir diariamente frutas, legumes e cereais e, ainda assim, apresentar baixa ingestão de determinados micronutrientes caso exista pouca diversidade entre os grupos alimentares.

Por exemplo:

Arroz + batata + banana + maçã, repetidos diariamente, fornecem energia e diversos nutrientes, mas não substituem a presença de fontes alimentares de ferro, zinco, vitamina B12, cálcio e outros micronutrientes.

Por outro lado, uma alimentação que inclua regularmente:

  • cereais e tubérculos;
  • feijões e outras leguminosas;
  • carnes, peixes e/ou ovos;
  • verduras e legumes variados;
  • frutas de diferentes cores;
  • leite materno e/ou alimentos lácteos adequados à idade;

tende a apresentar maior densidade e diversidade nutricional.

Essa variedade também é importante para a construção dos hábitos alimentares e para a exposição da criança a diferentes sabores, aromas, cores e texturas.

A qualidade da alimentação complementar importa

O período de 6 a 24 meses é considerado uma janela particularmente importante para o crescimento, desenvolvimento e formação de hábitos alimentares.

O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, recomenda que a alimentação complementar seja baseada em alimentos in natura ou minimamente processados, com variedade de grupos alimentares, respeitando os sinais de fome e saciedade da criança [1]. A recomendação é especialmente relevante quando pensamos em prevenção de deficiências nutricionais.

Em resumo

As deficiências nutricionais nos primeiros dois anos não devem ser analisadas de forma isolada. Elas são influenciadas pelo crescimento acelerado, reservas nutricionais ao nascimento, aleitamento materno, momento de introdução dos alimentos, quantidade e densidade nutricional da alimentação complementar, diversidade alimentar, condições socioeconômicas e presença de doenças ou restrições alimentares.

Entre os nutrientes que merecem maior atenção estão ferro, zinco, vitamina A, vitamina D, vitamina B12, folato, iodo e cálcio.

Na prática, uma das estratégias mais importantes é garantir que a alimentação complementar não seja apenas suficiente em quantidade, mas diversa, nutricionalmente densa e capaz de oferecer regularmente alimentos-fonte dos micronutrientes essenciais ao crescimento e desenvolvimento infantil.

Mais do que buscar um alimento “perfeito”, o objetivo é construir, refeição após refeição, uma alimentação variada que contemple diferentes grupos e fontes nutricionais.

Referências

1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Promoção da Saúde. Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2019.
2. World Health Organization. Complementary feeding of infants and young children 6–23 months of age: WHO guideline. Geneva: World Health Organization; 2023.
3. Universidade Federal do Rio de Janeiro. ENANI-2019: Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil – resultados preliminares. Rio de Janeiro: UFRJ; 2021.
4. Georgieff MK. Iron deficiency in pregnancy. Am J Obstet Gynecol. 2020;223(4):516-524.
5. Hurrell R, Egli I. Iron bioavailability and dietary reference values. Am J Clin Nutr. 2010;91(5):1461S-1467S.
6. Roohani N, Hurrell R, Kelishadi R, Schulin R. Zinc and its importance for human health: an integrative review. J Res Med Sci. 2013;18(2):144-157.
7. Gibson RS, King JC, Lowe N. A review of dietary zinc recommendations. Food Nutr Bull. 2016;37(4):346-359.
8. Pawlak R, Parrott SJ, Raj S, Cullum-Dugan D, Lucus D. How prevalent is vitamin B12 deficiency among vegetarians? Nutr Rev. 2013;71(2):110-117.
9. Dewey KG. The challenge of meeting nutrient needs of infants and young children during the period of complementary feeding: an evolutionary perspective. J Nutr. 2013;143(12):2050-2054.
10. Dewey KG, Brown KH. Update on technical issues concerning complementary feeding of young children in developing countries and implications for intervention programs. Food Nutr Bull. 2003;24(1):5-28.
11. Allen LH. Causes of vitamin B12 and folate deficiency. Food Nutr Bull. 2008;29(2 Suppl):S20-S34.
12. Zimmermann MB. Iodine deficiency. Endocr Rev. 2009;30(4):376-408.
13. Holick MF. Vitamin D deficiency. N Engl J Med. 2007;357(3):266-281.
14. Golden MH. Specific deficiencies versus growth failure: type 1 and type 2 nutrient deficiencies in the developing world. J Nutr. 1995;125(8 Suppl):S1517-S1535.
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Fernanda Bordini

Nutricionista Materno Infantil CRN 3 35472

Nutricionista, especialista em Nutrição Materno-Infantil pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, com formação em Nutrição no Início da Vida pela Ludwig-Maximilians-Universität München (LMU), Nutrição do Prematuro pela University of Western Australia (UWA) e Nutrição Hospitalar pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). Possui também Residência Multiprofissional pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP).