As fibras alimentares são componentes essenciais da alimentação infantil e estão presentes em alimentos de origem vegetal, como frutas, verduras, legumes, leguminosas e cereais integrais. Elas exercem papel importante na saúde intestinal, pois contribuem para o aumento do volume fecal, auxiliam no trânsito intestinal e podem ser fermentadas pela microbiota, favorecendo a produção de compostos benéficos, como os ácidos graxos de cadeia curta. Além disso, uma alimentação adequada em fibras está associada à melhor qualidade da dieta e pode contribuir para maior saciedade e melhor resposta metabólica ao longo do dia.1
Apesar de sua importância, o consumo de fibras por crianças e adolescentes ainda é frequentemente inferior ao recomendado. Em estudo multicêntrico brasileiro com crianças de 2 a 6 anos, a ingestão de fibras foi apontada entre os componentes alimentares abaixo das recomendações, junto com cálcio e vitaminas D e E.2 Entre adolescentes brasileiros avaliados no estudo ERICA, a ingestão média de fibras foi de 19,1 g/dia, e apenas 13,1% atingiram as recomendações, demonstrando que a inadequação do consumo de fibras também persiste em faixas etárias mais avançadas.3
Esse baixo consumo pode estar relacionado à menor presença de alimentos in natura na rotina alimentar e ao maior espaço ocupado por produtos de maior densidade energética e menor teor de fibras. Na infância, esse ponto merece atenção especial, pois é uma fase de formação de preferências alimentares, hábitos intestinais e padrões de consumo que podem se manter ao longo da vida. Assim, incentivar o consumo diário de diferentes fontes de fibras deve fazer parte das estratégias de educação alimentar voltadas às famílias, escolas e profissionais de saúde.1,3
A Inulina foi associada a melhora da microbiota com aumento da presença de Bifidobacterium nas fezes, levando a redução de constipação
Entre as fibras com ação prebiótica, a inulina tem recebido destaque por sua capacidade de ser fermentada por bactérias benéficas da microbiota intestinal. Estudos em crianças mostram resultados relevantes: em um ensaio clínico randomizado com crianças constipadas de 2 a 5 anos, a suplementação com frutanos do tipo inulina melhorou a consistência das fezes, sugerindo benefício no manejo nutricional da constipação funcional infantil.4 Em outro estudo, realizado com crianças saudáveis de 3 a 6 anos, a suplementação com frutanos do tipo inulina foi associada ao aumento de Bifidobacterium nas fezes, fezes mais macias e menor ocorrência de episódios febris que exigiram atendimento médico durante o período avaliado.5
Além dos efeitos intestinais, a inulina também tem sido estudada por possíveis benefícios relacionados à absorção de minerais. Em adolescentes, a combinação de frutanos do tipo inulina de cadeia curta e longa foi associada ao aumento da absorção de cálcio e à melhora de marcadores de mineralização óssea após o período de suplementação.6 Embora esses achados sejam promissores, a inulina deve ser compreendida como parte de uma alimentação equilibrada, e não como substituta de uma dieta variada. O consumo de fibras na infância deve priorizar alimentos naturalmente ricos nesse nutriente, como frutas, legumes, verduras, feijões e cereais integrais; porém, produtos suplementados com fibras, quando adequados à faixa etária e ao perfil nutricional infantil, também podem ser aliados para contribuir com o consumo diário de fibras, especialmente em crianças com baixa aceitação de alimentos fontes desse nutriente. Essa estratégia deve respeitar a tolerância individual e, sempre que necessário, contar com orientação do profissional de saúde.1,5,6
2.Bueno MB, Fisberg RM, Maximino P, Rodrigues GP, Fisberg M. Nutritional risk among Brazilian children 2 to 6 years old: a multicenter study. Nutrition. 2013;29(2):405-410. doi:10.1016/j.nut.2012.06.012.
3.Moreira CFF, Cople-Rodrigues CDS, Giannini DT, Kuschnir MCC, Oliveira CL. Low intake of dietary fibre among Brazilian adolescents and association with nutritional status: cross-sectional analysis of Study of Cardiovascular Risks in Adolescents data. Public Health Nutr. 2020;23(14):2557-2562. doi:10.1017/S1368980019004105.
4.Closa-Monasterolo R, Ferré N, Castillejo-DeVillasante G, Luque V, Gispert-Llaurado M, Zaragoza-Jordana M, et al. The use of inulin-type fructans improves stool consistency in constipated children: a randomised clinical trial, pilot study. Int J Food Sci Nutr. 2017;68(5):587-594. doi:10.1080/09637486.2016.1263605.
5.Lohner S, Jakobik V, Mihályi K, Soldi S, Vasileiadis S, Theis S, et al. Inulin-type fructan supplementation of 3- to 6-year-old children is associated with higher fecal Bifidobacterium concentrations and fewer febrile episodes requiring medical attention. J Nutr. 2018;148(8):1300-1308. doi:10.1093/jn/nxy120.
6.Abrams SA, Griffin IJ, Hawthorne KM, Liang L, Gunn SK, Darlington G, et al. A combination of prebiotic short- and long-chain inulin-type fructans enhances calcium absorption and bone mineralization in young adolescents. Am J Clin Nutr. 2005;82(2):471-476.
Ana Carolina Donan – Nutricionista – CRN3 n. 25785
