O leite materno contém carboidratos com funções que ultrapassam o fornecimento de energia, participando da formação da microbiota intestinal e de mecanismos de proteção contra patógenos.

Quando pensamos nos carboidratos do leite humano (LH), a lactose costuma ser o primeiro componente lembrado. No entanto, sua composição é muito mais complexa. Além da lactose, o leite humano contém oligossacarídeos e outros componentes bioativos que desempenham funções importantes na interação entre nutrição, microbiota e sistema imunológico.

Essa complexidade ajuda a explicar por que o leite humano é considerado um alimento biologicamente ativo, cuja composição oferece não apenas nutrientes, mas também diferentes elementos envolvidos na proteção e no desenvolvimento do lactente.

Oligossacarídeos: componentes únicos do leite humano

Os oligossacarídeos do leite humano (HMOs) são estruturas complexas de carboidratos e estão presentes em concentrações e variedades muito superiores às encontradas no leite de outras espécies, como o leite de vaca.

Uma de suas características mais interessantes é que muitos desses compostos não são digeridos pelo trato gastrointestinal superior. Dessa forma, chegam ao cólon, onde podem interagir com a microbiota intestinal.

Essa propriedade está relacionada ao seu papel prebiótico, favorecendo o crescimento de determinadas bactérias consideradas benéficas, especialmente do gênero Bifidobacterium.

Uma relação estreita com a microbiota

O intestino do lactente passa por um intenso processo de colonização nos primeiros meses de vida. Os componentes do leite humano participam desse processo de diferentes maneiras.

Os oligossacarídeos podem favorecer a presença de bifidobactérias e, consequentemente, contribuir para um ambiente intestinal menos favorável à proliferação de determinados microrganismos potencialmente patogênicos.

Além do efeito sobre a microbiota, esses carboidratos podem atuar como “receptores-isca”, dificultando a adesão de determinados patógenos às células do epitélio intestinal.

Essa propriedade foi descrita para microrganismos como Escherichia coli, Campylobacter jejuni, Streptococcus pneumoniae e Haemophilus influenzae.

A lactose também exerce funções além do fornecimento energético

A lactose é o principal carboidrato do leite humano e possui funções que vão além de fornecer energia.

Entre seus papéis descritos estão a participação na absorção de cálcio e a contribuição para a formação de determinados carboidratos derivados da lactose que podem exercer efeitos sobre a microbiota intestinal.

Assim, quando analisamos o leite humano, é importante compreender que seus carboidratos não devem ser considerados exclusivamente sob a perspectiva energética.

Carboidratos que dialogam com a imunidade

Outro aspecto interessante é a interação entre oligossacarídeos e componentes bioativos do leite humano.

Mucinas, glicoproteínas, glicolipídios e gangliosídeos também participam desse complexo sistema de proteção. Alguns desses componentes podem interferir na interação entre microrganismos e células do hospedeiro, contribuindo para mecanismos de defesa da mucosa intestinal.

Um exemplo descrito na literatura é a capacidade de componentes associados à mucina de interferirem na ligação de rotavírus às células intestinais.

Essa interação entre nutrientes, componentes bioativos e microbiota reforça a ideia de que a alimentação no início da vida influencia não apenas o crescimento, mas também a maturação do trato gastrointestinal e das respostas de defesa do organismo.

O que isso significa na prática clínica?

Para o profissional que acompanha o lactente, compreender a composição do leite humano é importante para reconhecer que a amamentação oferece uma combinação dinâmica de nutrientes e componentes bioativos, cuja atuação ocorre de maneira integrada.

Os oligossacarídeos do leite humano são um exemplo particularmente interessante: embora não tenham como principal função fornecer energia, participam de mecanismos relacionados à microbiota intestinal, integridade da barreira intestinal e proteção contra determinados patógenos.

Esse conhecimento também ajuda a compreender o desenvolvimento de estratégias para fórmulas infantis, incluindo a utilização de prebióticos, probióticos e, mais recentemente, oligossacarídeos estruturalmente semelhantes aos encontrados no leite humano.

Para o profissional de saúde: o leite humano permanece como referência biológica para a alimentação do lactente. A presença de componentes bioativos, como os oligossacarídeos, evidencia a complexidade do leite materno e a importância de considerar suas funções além da composição tradicional de macronutrientes.

Referência
ILSI Brasil. Carboidratos do leite e outros componentes bioativos e seus efeitos fisiológicos. In: Dinâmica da composição do leite humano e suas implicações clínicas. Série de Publicações ILSI Brasil: Força-Tarefa de Nutrição da Criança. Volume 8. São Paulo: International Life Sciences Institute do Brasil; 2018. cap. 6.3.
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Fernanda Bordini

Nutricionista Materno Infantil CRN 3 35472

Nutricionista, especialista em Nutrição Materno-Infantil pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, com formação em Nutrição no Início da Vida pela Ludwig-Maximilians-Universität München (LMU), Nutrição do Prematuro pela University of Western Australia (UWA) e Nutrição Hospitalar pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). Possui também Residência Multiprofissional pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP).