Dra. Tamara Lazarini 

Nutricionista, Doutorado em oligossacarídeos pela Universidade Federal de São Paulo, membro do LASPGHAN. 

A composição lipídica do leite humano desempenha papel central no crescimento, no desenvolvimento neurológico e na programação metabólica do lactente. Embora seja amplamente reconhecido que a dieta materna influencia o perfil de ácidos graxos do leite, evidências emergentes apontam que fatores metabólicos maternos, como o índice de massa corporal pré-gestacional (IMC pré-gestacional), também exercem impacto relevante sobre essa composição. 

Um estudo recente, conduzido no contexto do Human Milk Study, investigou de forma aprofundada a associação entre o IMC materno antes da gestação e a composição de ácidos graxos (AG) e fosfolipídeos (PL) do leite humano, considerando potenciais fatores de confusão, como o consumo materno de peixe — utilizado como marcador indireto da ingestão de ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa da série n-3 (n3-LCPUFA). 

Metodologia 

Foram analisadas 628 amostras de leite humano provenientes de uma coorte de nascimentos norueguesa. A composição lipídica foi determinada por técnicas de alta precisão, incluindo cromatografia gasosa e espectrometria de massa por injeção direta, permitindo a quantificação de: 

  • Ácidos graxos totais 
  • Espécies de fosfolipídeos contendo colina, como lisofofatidilcolina (LysoPC), fosfatidilcolina e esfingomielina 

A relação entre o IMC pré-gestacional materno e os metabólitos lipídicos do leite foi avaliada por modelos de regressão múltipla, com critérios estatísticos rigorosos (p ajustado < 0,0005). 

Principais achados 

O IMC materno pré-gestacional apresentou associações significativas com diversos componentes lipídicos do leite humano: 

  • Redução de n3-LCPUFA 
    (β = −0,138; IC95%: −0,015 a −0,005) 
  • Aumento da razão n6/n3-LCPUFA 
    (β = 0,170; IC95%: 0,012 a 0,028) 
  • Maior proporção de ácidos graxos monoinsaturados (AGMI) 
    (β = 0,207; IC95%: 0,076 a 0,180) 

Entre os fosfolipídeos, observou-se associação positiva entre o pIMC e espécies específicas de lisofofatidilcolina: 

  • LysoPC16:1 
  • LysoPC18:1 

O pIMC explicou uma parcela relevante da variabilidade de alguns componentes: 

  • 40% da variância da razão n6/n3-LCPUFA 
  • 34% da variância dos n3-LCPUFA 
  • 10% da variância dos AG monoinsaturados 

Não foram observadas associações significativas entre o pIMC e as classes totais de fosfolipídeos contendo colina. 

Interpretação e implicações clínicas 

Os autores sugerem que alterações metabólicas associadas à obesidade materna, como: 

  • maior atividade da estearoil-CoA dessaturase, 
  • menor atividade da lipoproteína lipase, 
  • maior liberação de ácidos graxos não esterificados do tecido adiposo, 

podem influenciar a disponibilidade e o perfil de ácidos graxos utilizados pelas glândulas mamárias para a síntese lipídica. 

Esses achados reforçam que a qualidade nutricional do leite humano não depende apenas da ingestão alimentar, mas também do estado metabólico materno antes da gestação. 

Conclusão

Além de estratégias dietéticas adequadas, a manutenção de um IMC materno saudável no período pré-gestacional emerge como um fator potencialmente modificável para otimizar a composição lipídica do leite humano. Essa abordagem integrada pode contribuir de forma relevante para a saúde e o desenvolvimento infantil, reforçando a importância do cuidado nutricional da mulher antes mesmo da concepção. 

Ahmed T, Eggesbø M, Criswell R, Demmelmair H, Koletzko B. Associação do IMC materno pré-gestacional com a composição de ácidos graxos e fosfolipídeos do leite humano. In: 57th Annual Meeting of the European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition (ESPGHAN); 2025 May 14–17; Helsinki, Finland. Abstract. 

Artigo relacionado: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/09637486.2019.1646713 
admin
Dra Tamara Lazarini

Nutricionista, Doutorado em oligossacarídeos pela Universidade Federal de São Paulo, membro do LASPGHAN.